O PENSAR, SENTIR E VIVER MADALENENSE. UM ESPAÇO DE PARTILHA E DIÁLOGO QUE MARCA PELA DIFERENÇA E QUALIDADE
Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2013
Entrevista de D. José Cordeiro ao Jornal Correio dos Açores



O Bispo de Bragança - Miranda, D. José Garcia Cordeiro, vai proferir pelas 20h30 de hoje na Igreja do Colégio, em Ponta Delgada, uma conferência sobre a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II depois de, nos últimos dias, ter estado em retiro com os padres de São Miguel no Centro Missionário dos Dehonianos. Para D. José só há uma liturgia “fiel ao mandato de Jesus que diz: “Fazei isso em memória de mim”. Sublinha que as igrejas vazias nos Açores é culpa da Igreja que não forma devidamente os cristão e não lhes transmite um sentido de pertença

Correio dos Açores - Quais as grandes orientações da reforma litúrgica do Concílio Vaticano II.
D. José Garcia Cordeiro (Bispo de Bragança - Miranda) - A reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, voltando às fontes da Bíblia, da patrística, de toda a grande tradição da Igreja, propõe a liturgia como fonte primeira da fé, a primeira escola da fé. É fonte e vértice de acção da Igreja hoje como sempre, mas propô-la como a Bíblia rezada, como a fé celebrada para passar a vida do quotidiano.
E a reforma litúrgica propôs-se no grande objectivo do Concílio Vaticano II aumentar a vida cristã e fomentar a participação activa, consciente e fructuosa de todos os que se dizem seguidores de Jesus Cristo para que, celebrando a fé, se sintam cada vez mais a viver em Cristo.

Já passou o tempo da liturgia tradicional?
A missa é sempre a mesma porque foi celebrada, uma vez por todas, por Jesus Cristo. O modo de a celebrar é que só pode ser feito na fé da Igreja. Por isso, nem há missa tradicional e a actual, nem a do passado e a do futuro. Ela é sempre a mesma e celebrada segundo o espírito da liturgia, segundo o espírito da Igreja, que é a fé da Igreja. Não pode ser outro.

Porque é que há uma afluência de mais crentes a determinadas Igrejas para ouvir determinados padres e menos crentes em outras Igrejas. Porque é que há um desaparecimento generalizado de fiéis das missas?
Se calhar, por culpa da própria Igreja, porque tem faltado a formação, a educação litúrgica, que é o grande desafio à Igreja: É o formar para a missão.
Não se vai à missa do padre A, B ou C, à paróquia A, B ou C, mas a uma única missa à qual preside Jesus Cristo - o padre, ou o Bispo sempre em nome de Jesus Cristo e em nome da Igreja. E se, às vezes, isso acontece com alguma frequência nas nossas igrejas, é por falta desta consciência clara do espírito da liturgia.

Porque é que as Igrejas nos Açores estão a ficar cada vez mais vazias? Mas, entretanto, há algumas Igrejas cheias de crentes em função da forma como os padres procedem à celebração eucarística…
Não conheço a realidade da Igreja aqui presente nos Açores. Começo agora a entrar um pouco nesta dinâmica com orientação dos retiros ou presbitérios e com contacto com algumas realidades eclesiais. Por isso, não posso falar no caso específico dos Açores.
Mas, de um modo geral, quando isso acontece, é justamente por essa falta de formação dos nossos cristãos e pela falta de consciência da pertença à Igreja. Porque hoje não se trata de uma questão de fé, de acreditar ou não acreditar. Hoje está também em crise o sentido da pertença à Igreja. Quando eu não me sinto membro efectivo e afectivo do corpo de Cristo que é a Igreja, às vezes não apareço e não vivo as exigências do Baptismo. Por isso, esta é uma questão mais global. Não é assim tão pontual e ocasional dessa participação ou não participação na liturgia das igrejas. E o sentido de pertença acontece justamente pela eucaristia porque é a eucaristia que faz a Igreja. E a Igreja também faz a eucaristia. É outro reverso da medalha. Por isso, a participação activa, consciente e fructuosa dos fiéis é que constrói a Igreja a partir da eucaristia.

Não se pode falar numa eucaristia, - e ponho o termo entre aspas -, “mais moderna”…
Não, nunca se poderá usar porque a eucaristia é sempre a mesma. É fiel ao mandato de Jesus quando diz: “Fazei isto em memória de mim”.

Qual a mensagem que vem trazer?
O que digo é que a liturgia é a primeira escola da fé. E, depois, enunciarei os grandes princípios da reforma litúrgica e, sobretudo, espero um diálogo, um enriquecimento, uma partilha e também procurar, na medida do possível, responder a algumas questões e inquietações das pessoas que participarem nesta conferência. Fundamentalmente, é isto. Não é uma mensagem especial, mas dizer que a eucaristia é a fé da Igreja que é celebrada para ser vivida.

Uma das suas inquietações é o crescimento da pobreza na zona de Bragança. Esta é também uma realidade nos Açores...
A Igreja está sempre ao serviço de todos e, de um modo especial, do lado dos mais pobres e dos mais desfavorecidos porque esta faz parte da essência da sua evangelização e do ser Igreja. Mas a Igreja está também ao lado de todos aqueles que procuram erradicar a pobreza para que a vida seja mais digna, seja mais autêntica. E, segundo os princípios da doutrina social da Igreja, o primado da pessoa humana e o serviço do bem comum, por si mesmos, hão-de galvanizar para que a justiça social e a caridade possam encontrar formas de erradicar a pobreza e que existam cada vez menos pessoas que precisem. Mas, enquanto houver pessoas que precisem da nossa ajuda, nós deveremos estar sempre ao lado deles como o bom samaritano da humanidade que é Jesus Cristo.

As políticas restritivas que estão a ser seguidas em Portugal oprimem os mais desfavorecidos?
Nós, como Igreja, não podemos interferir na política. O que podemos chamar a atenção sempre é para os valores fundamentais do bem comum e da pessoa humana. E, por isso, as políticas que não estiverem ao serviço da pessoa humana, que não estiverem ao serviço da dignidade da pessoa humana, ao serviço do bem comum e só servirem para políticas da procura do lucro ou políticas economicistas, claro que não podem ter o melhor acolhimento nem o bom acolhimento da Igreja. Acima e mais do que o dinheiro, estão as pessoas. O caminho da Igreja e o caminho do Estado têm de ser as pessoas. E a política tem de ser um serviço social, tem de ser uma caridade em acção.

Vive numa comunidade que sente a interioridade em Portugal. Trata-se de um conceito diferente de insularidade. As populações de Bragança sentem muitos os efeitos desta interioridade?
Sim, Bragança sente mesmo que é periférica em relação a Lisboa e a outros grandes centros do país. A grande diferença é que, felizmente, a insularidade é um direito contemplado e é um conceito jurídico. Já a interioridade ainda não é um conceito jurídico e, por isso, de certo modo, nós em Bragança e no interior do país continental, sofremos muito com isso. São muitas as evidências relativamente aos grandes centros de decisão e da vida deste país.

É apologista de que a interioridade deveria ser um conceito jurídico…
Sim, entendo que sim, em razão da coesão nacional.

Quem é D. José?

D. José Cordeiro tem um extenso curriculum, de que destacamos as seguintes passagens: Foi nomeado Vice-Reitor do Pontifício Colégio Português em Roma no ano de 2001/02 e em 2005/06 passou a Reitor do mesmo Colégio até ao ano de 2011.
No ano 2006-2007 frequentou o Master em Couseling Experiencial na ASPIC (Associazione per lo sviluppo Psicologico dell’Individuo e della Comunità) da Escola Superior Europeia do Counseling Profissional de Roma.
Durante o período que permaneceu em Roma (1990 a 2011) leccionou várias disciplinas, mormente relacionadas com a sua especialização em Liturgia, na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade de S. Tomás de Aquino (Angelicum) e no Pontifício Instituto Litúrgico, em Roma.
A 18/07/2011, foi eleito Bispo de Bragança - Miranda pelo Papa Bento XVI.
A sua Ordenação Episcopal e tomada de posse ocorreu a 02/10/2011 na Catedral de Bragança, tendo escolhido como lema do seu episcopado “Ad docendum Christi mysteria”.
Desde 2011 é vogal da Comissão Episcopal para a Liturgia e Espiritualidade e da Comissão Episcopal para as Vocações e Ministérios, da Conferência Episcopal Portuguesa.
Em 15 de Maio de 2012 foi empossado como académico correspondente da Academia Internacional da Cultura Portuguesa. A sessão de investidura teve lugar na sede da instituição, em Lisboa, onde o prelado fez uma dissertação sobre o tema “Do Movimento Litúrgico à Reforma Litúrgica em Portugal”.
É autor de várias obras.

Autor: João Paz



publicado por magdala às 12:51
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