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Quarta-feira, 5 de Setembro de 2012
Orientações Diocesanas para o Ano Pastoral 2012-2013

Nota Pastoral Programática do Bispo Diocesano

 

FÉ E NOVA EVANGELIZAÇÃO

 

As Orientações Diocesanas de Pastoral para 2012/13 têm em conta as propostas da Igreja Universal e da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).

Como sabemos, em Outubro de 2012 vai realizar-se o Sínodo dos Bispos sobre o tema: «Nova Evangelização para a Transmissão da Fé Cristã». Acontecimento eclesial, que vai, com certeza, dominar a agenda da Igreja Universal, nos próximos anos.  Começando já com o Ano da Fé, proclamado por Sua Santidade o Papa Bento XVI (de 11 de Outubro de 2012 a 24 de Novembro de 2013), a coincidir com as comemorações do 50º Aniversário da abertura do Concílio Vaticano II.

 

Explica o Santo Padre, na Carta Apostólica A Porta da Fé: «Pareceu-me que fazer coincidir o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II poderia ser uma ocasião propícia para compreender que (…) o Concílio pode ser e tornar-se, cada vez mais, uma grande força para a renovação sempre necessária da Igreja (…). A renovação da Igreja realiza-se também através do testemunho, prestado pela vida dos crentes: de facto, os cristãos são chamados a fazer brilhar, com a sua própria vida no mundo, a Palavra de verdade que o Senhor Jesus nos deixou (…).

 

«Nesta perspectiva o Ano da Fé é convite para uma autêntica e renovada conversão ao Senhor, Único Salvador do mundo (…). Simultaneamente esperamos que o testemunho de vida dos crentes cresça na sua credibilidade» (Bento XVI, Carta Apostólica Porta Fidei”=PF, 2011, nn. 5-6).

 

Como transmitir o que não muda, num mundo em mudança? Só mudando. Não O Evangelho, que é o mesmo de sempre. E não só a actuação pastoral, mas também e, sobretudo, a nossa vida, através de uma fé esclarecida, celebrada e comprometida.

 

Fé esclarecida

 

Adverte o Papa Bento XVI:, «Sucede não poucas vezes que os cristãos sintam maior preocupação com as consequências sociais, culturais e políticas da fé do que com a própria fé, considerando esta como um pressuposto óbvio da sua vida diária. Um tal pressuposto, não só deixou de existir, mas frequentemente acaba até negado. Enquanto no passado era possível reconhecer um tecido cultural unitário, amplamente compartilhado no seu apelo aos conteúdos da fé e aos valores por ela inspirados, hoje parece que já não é assim em grandes sectores da sociedade, devido a uma profunda crise de fé, que atingiu muitas pessoas» (PF 2).

 

Ora, fazendo coincidir «o início do Ano da Fé com o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II», o Santo Padre pretende, não só reafirmar a actualidade dos documentos conciliares, mas também insistir na necessidade de promover uma fé esclarecida, através de uma adequada formação cristã.

 

É nesse sentido que recomenda a utilização do Catecismo da Igreja Católica, considerado uma aplicação do Concílio nos nossos tempos. Efectivamente, como afirmam os nossos Bispos, «a Igreja de Cristo é hoje a Igreja do Concílio Vaticano II, que nos compete continuar a aplicar com fidelidade criativa…

A celebração do presente aniversário – advertem os Bispos portugueses - deve levar-nos a um exame de consciência, pessoal e comunitário, para vermos o que falta fazer para implementar o espírito e a letra do Concílio» (CEP, Nota Pastoral: Celebrar e Viver o Concílio Vaticano II, 2012, n. 2).

 

É o que pretende o projecto da CEP - «Repensar Juntos a Pastoral da Igreja em Portugal» - que preconiza um «itinerário de iniciação ou reiniciação cristã num ano», seguindo o modelo catecumenal. A Comissão Episcopal “Missão e Nova Evangelização” fala de Escolas da Fé, para «formar comunidades com dinâmica missionária».

 

Por seu lado, o Santuário de Fátima, no quadro do quinquénio de preparação das comemorações do centenário das aparições, propõe para 2012/13, «o reavivar da fé cristã, bem como o seu aprofundamento e o testemunho irradiante no mundo».

 

Portanto, a palavra de ordem terá que ser sempre e em toda a parte a prioridade da formação. Não se pode viver autenticamente o que não se conhece. Daqui a necessidade inadiável de garantir a Formação Permanente dos leigos e do clero, nomeadamente sobre os documentos conciliares, que, além do resto, devem continuar a ser devidamente aprofundados no Seminário Episcopal, a celebrar, este ano, o cinquentenário de serviço à Diocese e à sociedade açoriana.

 

«Pode-se discutir muito sobre o que o Vaticano II representou na recente história da Igreja. Ora bem, qualquer que seja o ângulo de observação, ele continua a apresentar o objectivo de recolocar a Igreja no carril principal da evangelização do mundo contemporâneo. Tanto a Lumen Gentium, como a Gaudium et Spes – para me referir só às duas Constituições mais eclesiológicas – mas também a Sacrossanctum Concilium e a Dei Verbum, não fazem outra coisa senão exprimir a mesma ideia de fundo (…): como exercer a missão principal e prioritária do anúncio do Evangelho de modo renovado e eficaz» (Rino Fisichella, A Nova Evangelização, Paulus, 2012. P. 14).

 

Fé celebrada

 

O Santo Padre apresenta o Ano da Fé como «uma ocasião propícia também para intensificar a celebração da fé na liturgia, particularmente na Eucaristia, que é “a meta para a qual se encaminha a acção da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força” (SC 10)» (PF 9).

 

De facto, «a liturgia é a fé da Igreja em acto… Para o crente a liturgia é a primeira escola da fé, onde se conhece o mistério de Deus, celebrando-O… O mistério de Deus opera eficazmente em quem o celebra… Portanto, o primado não vai para as minhas emoções, mas para a Palavra de Deus; não para os meus sentimentos, mas para a acção da graça divina» (Lorenzo Prezzi, Mistagogia, Compito della Chiesa, in: Settimana, nº 15, aprile 2012, p. 1 e 16).

 

Daqui a oportunidade e importância de retomar e aprofundar as orientações conciliares sobre a reforma liturgia. Quando o Concílio recomenda a participação activa na liturgia não está a promover um mera exteriorização celebrativa, mas sim a exortar a uma melhor interiorização. Mais do que espectáculo emocional, as nossas celebrações litúrgicas devem ser experiência espiritual, que leve à escuta da Palavra e ao acolhimento da Graça.

 

Assim à pergunta - «que havemos nós de fazer» para evangelizar este mundo em mudança – podemos responder com os Actos dos Apóstolos, que resumem a vida dos primeiros cristãos nestes termos: «Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações» (Act 2, 42).

 

Temos aqui o primado da escuta da Palavra de Deus e da Liturgia, que estão na origem do ser da Igreja e constituem a finalidade do seu agir. Assim, a escuta da Palavra e a celebração da Eucaristia constituem o essencial da acção da Igreja, para ser fiel à sua missão. Não para se fechar num intimismo alienante da realidade, mas para ser sacramento e profecia do Reino de Deus.

 

Fé comprometida

 

Não há Nova Evangelização, sem uma fé vivida. O anúncio pressupõe o testemunho de vida. É bem verdade que a fé é dom de Deus, mas chega às pessoas pela mediação da Igreja e pelo seu testemunho. «Ninguém dá o que não tem» - adverte S. Tomás de Aquino. Só quem vive a fé é que poderá ser veículo para a transmitir.

 

Com razão, afirmava o Papa Paulo VI: «O homem contemporâneo escuta mais as testemunhas do que os mestres e, se escuta os mestres é porque são testemunhas (Evangelii Nuntiandi, n. 41). Mais do que aos discursos, as pessoas estão sensíveis às obras e ao testemunho de vida. Não basta dizer que o Evangelho «humaniza». É preciso mostrar, na vida concreta, que isso é verdade.

 

Como afirmava D. Rino Fisichella, nas Jornadas Pastorais do Episcopado (2011), «a Nova Evangelização parte daqui: da credibilidade da nossa vida de crentes… Sabe, portanto, dar razão da fé, com um anúncio de conteúdos vividos… Bem sabemos que a transmissão da fé não representa basicamente um conteúdo abstracto, mas um estilo de vida, que tem a sua origem na opção de seguirmos Cristo e de assumirmos a Sua Palavra, como promessa e realização de nós próprios…».

 

O Concílio Vaticano II ensina-nos a estarmos presentes no mundo, com a esperança cristã, que nos compromete, aqui e agora, na construção do Reino de Deus, inaugurado por Jesus. Como afirma alguém, «os dois grandes desafios da Igreja, no momento presente, são a transmissão da fé e o compromisso com a justiça (…). Urge, pois, repensar a presença pública dos cristãos: a maneira de nos situarmos no mundo, de nos relacionarmos na vida quotidiana, de participarmos na vida pública, na economia, na política (…).

 

«Não podemos esquecer que o núcleo da experiência cristã é a prática da caridade, em todas as suas frentes, desde a mais imediata, como são as Obras de Misericórdia, até aos vastos horizontes dos compromissos com as grandes causas da justiça e da paz, dos direitos humanos e da ecologia (…). A ausência de compromisso com a caridade e com a justiça, nas paróquias e em projectos pastorais, talvez explique, em parte, a rotina da vida paroquial e a falta de entusiasmo dos seus membros» (António Ávila, Una Mirada sobre la Vida de Nuestras Comunidades, Verbo Divino, 2011, p. 48-53).

 

A Porta da Fé

 

«A Porta da Fé (cf. Act 14, 27), que introduz na vida de comunhão com Deus e permite a entrada na Sua Igreja, está sempre aberta para nós. É possível cruzar este limiar, quando a Palavra de Deus é anunciada e o coração se deixa plasmar pela graça que transforma. Atravessar esta porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira» (PF 1).

Assim o Santo Padre inicia a Carta Apostólica, em que proclama o Ano da Fé, numa perspectiva de abertura missionária. Nos Actos dos Apóstolos, Lucas utiliza a expressão «porta da fé», no contexto da primeira viagem missionária de Paulo, acompanhado por Barnabé. Diz o texto que, quando chegaram a Antioquia, donde tinham partido, «convocaram a Igreja, contaram tudo o que Deus fizera com eles e como abrira aos gentios a porta da fé»  (Act 14, 27).

 

A expressão pode ser entendida como «a porta que é a fé». Implica, não só «entrar», mas também «sair». Entra-se, não só para estar, mas também para sair:

* entra-se para renascer e sai-se para testemunhar;

* entra-se para aprender e sai-se para ensinar;

* entra-se para receber e sai-se para dar.

 

É esta dimensão missionária, que devemos procurar viver e promover, neste Ano da Fé, tanto em relação aos que estão fora ou longe da Igreja, como também em relação aos que estão dentro da Igreja. Efectivamente, «muitos baptizados vivem, como se Cristo não existisse: repetem-se gestos e sinais de fé, sobretudo, por ocasião das práticas do culto, mas sem a correlativa e efectiva aceitação do conteúdo da fé e adesão à pessoa de Cristo» (Ecclesia in Europa, 3003, n. 47).

 

Cristo é o caminho a seguir, a porta por onde passar. Fora d’Ele, não há salvação, nem futuro para a humanidade. «Evangelizar» é levar Cristo às pessoas e ajudar as pessoas a encontrarem Cristo. Mas isso não é possível, se eu não tiver já feito a experiência de ter sido gratuitamente amado e perdoado por Ele.

 

O fundamento da fé cristã é «o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo» (Deus Caritas Est, 2005, n. 1). A fé cristã é adesão pessoal à Pessoa de Cristo, o que implica uma nova maneira de ser e de agir, conforme o «pensamento de Cristo» (1 Cor 2, 16).

 

O Ano da Fé é, pois, um momento especial de graça, para reavivar e robustecer, testemunhar e transmitir a nossa fé, centrada na Pessoa de Cristo.

Assim nos ajude a Virgem Mãe! Nada mais tem a dar-nos, senão o Seu Filho, o Único Salvador, ontem, hoje e sempre.

 

 

+ António, Bispo de Angra

Angra, 30 de Junho de 2012



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